Sobre a formação do orador

“Qualquer um que tenha ouvido um pouco mais a arte, principalmente sobre a elocução, poderá perceber as coisas ditas artificialmente; mas ninguém, a não ser um erudito, poderá produzi-las” (Retórica a Herênio IV, 7).[1]

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Neste ponto pretendemos discutir brevemente a formação do orador. Tema que é muito importante para nossas aulas, pois a formação dos escritores antigos e suas próprias preocupações em louvar a eloquência dos grandes homens, e vituperar os magistrados que não eram fluentes na arte da oratória, na filosofia, retórica e nos preceitos militares.

Essa preocupação é bem ilustrada pela epígrafe dessa discussão, na qual podemos perceber claramente a apresentação de um tópos discursivo calcado na decadência da educação e da eloquência dos grandes homens. Esse tópos discursivo vai a encontro com outra tópica que também era calcada na decadência, só que dos costumes. Muitas explicações podem ser realizadas para tentarmos entender esse processo muito bem evidenciado pelas fontes, contudo esse debate não é nosso objetivo. Desta parte, o que nos suscita atenção é o fato de que as novas necessidades originadas por um novo sistema de governo, o principado, ter modificado os valores da antiga e da nova nobreza, que, agora, estavam fundadas no dinheiro, vinho, prostitutas e bajulações.

Outro ponto interessante é a própria liberdade de expressão que é muito prejudicada durante os governos dos imperadores. Os homens eloquentes se encontravam em uma posição muito delicada, pois exercer a liberdade de expressão (literária ou nos fóruns) sem nenhuma moderação era nocivo para a própria vida dos cidadãos. Contudo, essa alteração dos valores, e a sua consequente crítica pelos eruditos nos oferecem substrato para discutirmos a respeito da formação dos grandes homens que legaram as obras que hoje estudamos e entendemos como um constructo muito diferente das obras que produzimos.

Apesar da nossa proposta em discutir o aprendizado e o ensino das artes de composição dos discursos (orais ou não), cabe destacar que não estamos afirmando que existia na antiguidade um sistema unificado e padronizado de ensino. Nosso intuito nessa sessão é de apenas apresentar como se dava a formação dos homens eloquentes, sob a ótica dos próprios retóricos e oradores antigos como: Cícero (De Oratore e Orator) e Quintiliano (Institutio Oratoria).

A escolha desses autores se deve ao fato de que eles nos auxiliam a compreender o processo de formação do orador. Dentre os assuntos discutidos nesses manuais, destacamos a própria composição de um determinado tipo de gênero de discurso, bem como a apresentação dos elementos que devem estar contidos em sua composição, seguido da introdução das auctoritates que o bom orador deve conhecer.

Cabe assim dizer que a formação propagada por esses manuais abrangem uma vasta formação discursiva, como os mimos, os encômios, a poesia, a história e a sátira. Como também exercitavam a própria prática da arte da oratória, que estava calcada em exercícios de declamação, memorização e métodos que incitavam o pathós da audiência, como o riso e o ódio.

Dito essas considerações, atentamos para o estudo de Antônio Martinez de Resende, aonde é apontado que a essência da oratória é o discurso proferido em público, a palavra em ação que sai da boca, sendo confirmada por sua própria etimologia[2]. Ou seja, a oratória necessita de espaços de oralidade.

Desde Homero, a tradição da oralidade nos ambientes de sociabilidade, como os fóruns, banquetes, escolas de declamação e recitação de grandes oradores nos espaços públicos, se tornaram elementos essenciais na vida dos políticos e cidadãos das poleis gregas e das urbis romanas. Tendo em vista essa vasta tradição, percebemos a infinidade de assuntos a serem tratados sobre a educação antiga[3], mesmo se apenas nos atentarmos aos manuais latinos

Como a proposta geral desse trabalho não é discutir em vastas páginas a formação dos oradores antigos partiremos para um exercício muito simples, que a nosso ver se torna bastante ilustrativo para o tema desse tópico. Para tanto, iremos extrair informações acerca da formação dos oradores através de um pequeno diálogo com a obra Satyricon, de autoria atribuída a C. Petrônio[4].

Todavia, devemos atentar para o fato de que esta obra não realiza reproduções fidedignas das práticas cotidianas de Roma. Mas, se constitui em um manancial inesgotável para discutirmos a formação dos jovens oradores por diversas maneiras.

Primeiramente, porque a primeira parte conservada da obra é iniciada com uma discussão sobre a educação dos jovens. Esses cinco primeiros capítulos do Satyricon são dedicados a crítica aos adolescentes que “se tornam completamente estúpidos nas escolas” (Petrônio, Satyricon, I, 3)[5]. A causa dessa baixa eloquência dos jovens, que não chegam a ter a fama de Tucídides (Petrônio, Satyricon, II, 8), é atribuída aos pais que “não querem que seus filhos progridam por meio de um preceito severo” (Petrônio, Satyricon, IV, 1)[6]. Dessa maneira, os problemas da educação não estariam nos professores, como Agamêmnon, pois estes somente podem atrair seus alunos se a sua educação fosse bajuladora e favorável a “insanidade de seus alunos dementes” [7] (Petrônio, Satyricon, III, 2).

Os próprios personagens da trama: Encólpio, Gitão e Ascilto são jovens estudantes de retórica e oratória que convivem grande parte da narrativa com Eumolpo[8], um poeta que toda vez que declama as suas poesias recebe pedradas na cabeça (Petrônio, Satyricon, XC).

Outro fator importante é transição de ambientes aonde a prática da oratória era muito comum[9], e que iremos nos ater, como o banquete de Trimalquião. Nosso interesse nesse episódio se deve ao fato de que a descrição ridicularizada de oradores é muito ilustrativa para nosso debate. Como exemplo, durante a narrativa da cena Trimalchionis o banquete é interrompido para a declamação de versos da Eneida de Virgílio por um escravo alexandrino de propriedade de Habinas (Satyricon, LXV). Feito a terrível declamação[10], o proprietário do pouco erudito orador profere as seguintes palavras:

Ele nunca foi à escola (1), mas eu o eduquei mandando-o conviver com artistas de rua. É por isso que ele não tem corrente, se quer imitar seja os carroceiros, seja os artistas de rua (2). Para desespero de seus rivais, ele é muito talentoso: do mesmo modo que é sapateiro, é também cozinheiro, é padeiro (3), um escravo de toda e qualquer musa (4). No entanto ele tem dois defeitos, os quais se não tivesse era perfeito: ele fez cirurgia de fimose e ronca. Eu não me importo dele ser vesgo (5): é assim que Vênus olha. (Petrônio, Satyricon, LXVIII, 6 – 8) [11]

Nessa passagem podemos extrair cinco pontos fundamentais para nossa discussão sobre a formação do orador: (1) o fato do declamador nunca ter ido para escola e ser educado por artistas de rua e carroceiros, (2) não possuir um modelo douto para imitar, (3) ser sapateiro, padeiro e cozinheiro, (4) inspirado por toda e qualquer musa e, por ultimo, (5) era vesgo.

Dessa maneira, começando pelos dois últimos pontos extraídos de Petrônio, podemos perceber claramente a comparação do declamador escravo de Habinas com Demódoco, o aedo da obra Odisséia de Homero. Na epopéia homérica, o poeta de Homero é representado como cego e inspirado pelas musas filhas de Mnemosýne com Zeus (Homero, Odisséia, 8, 485 – 498). Já, o declamador de Habinas é descrito como vesgo e inspirado por qualquer coisa[12].

Outros dois pontos destacados, respectivamente o primeiro e o segundo, dizem respeito a própria formação do orador, como o fato de nunca ter ido a uma escola e, por isso não possuir um modelo para emular. Essa duas etapas são essenciais para compreendermos a formação do orador, tendo em vista as “matérias” ensinadas nas escolas de declamação, como a filosofia, o direito, a história e a poesia, como também a prática da emulação dos modelos estudados.

Por exemplo, Cícero, em Orator, 15 – 17 defende o estudo da filosofia como uma prática essencial para o orador. Referindo-se ao Sócrates da obra Fedro de Platão, menciona a grandiloquência do ateniense Péricles e de seu mestre Anaxágoras, como também elogia Demóstenes cujas epístolas são fáceis de identificar o quanto fora discípulo de Platão. Já, Quintiliano arrola no décimo livro da Institutio oratoria uma série de auctoritates no campo literário e discursivo das quais o orador deve se instruir para se tornar um modelo de orador.

O terceiro ponto destacado do Satyricon que consiste nas ocupações exercidas pelo declamador escravo de Habinas: sapateiro, padeiro, cozinheiro e escravo. Construção que se constitui como antagônica daquelas ocupações dos homens doutos que se exercitavam nas escolas de retórica e oratória, formadas basicamente por equestres, senadores, ou seja, homens que estavam ligados aos negócios do Estado e eram atuantes na política[13].

Estes oradores possuíam uma formação educacional calcada em estudos de gramática, retórica e exercícios de oratória. Artes do saber que tinham como base a leitura e a declamação de vários autores, como Homero, Tucídides, Platão, Isócrates, Aristóteles, Demóstenes, Virgílio, Salústio e Cícero, como também a leitura de historiadores, como Heródoto, Tucídides, Políbio e Tito Lívio.

Contudo, como dissemos, esse tipo de educação era privilégio de poucos. O próprio linguajar das grandes composições, os temas tratados, o entendimento dos topós e figuras discursivas geravam a necessidade de que os ouvintes fossem também de uma instância instruída da sociedade, e, como decorrência, eram declamadas ou lidas em ambientes aristocráticos[14].


[1] Tradução de Ana Paula Celestino Faria e Adriana Seabra. Cf. [CÍCERO], 2005.

[2] oratoria é construída pelo radical os, oris (boca, enquanto instrumento que fala). Cf, REZENDE, Antônio Martinez. In: QUINTILIANO, 2010.

[3] Basta atentarmos para a enorme discussão do livro MARROU, Henri-Irénée, 1990.

[4] O mesmo que é descrito em Anais XVI, 17; XVI, 18; XVI, 19.

[5] Et ideo ego adulescentulos existimo in scholis stultissimos fieri. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Cf. PETRÔNIO. Satyricon, 2004.

[6] Parentes obiurgatione digni sunt, qui nolunt liberos suos severa lege proficere. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Cf. PETRÔNIO. Satyricon, 2004.

[7] Nihil nimirum in his exercitationibus doctores peccant qui necesse habent cum insanientibus furere. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Cf. PETRÔNIO. Satyricon, 2004.

[8] Eumolpo também havia sido tutor de um jovem de Pérgamo. (Satyricon, LXXXV)

[9] Embora não transitem pelo Fórum, os personagens acusam um camponês de ter roubado deles um manto cheio de moedas (Satyricon, XIII). Esse episódio é marcado pela crítica que se tem a oratória forense, tendo em vista que os advogados representados estavam famintos por dinheiro (“os oficiais de justiça já quase como ladrões” Satyricon, XV) e sempre eram favoráveis àqueles que possuíam grande influência na sociedade – (“Quem nos conhece nesse lugar?” – Satyricon, XIV, 1).

[10] “Nunca nenhum som mais desagradável penetrou os meus ouvidos, pois, além de sua declamação demonstrar uma rispidez que se perdia entre o elevar e o abaixar da voz, ele misturava versos atelânicos (versos ridículos), de forma tal que, pela primeira vez, até mesmo Virgílio me desagradou naquele momento” (Satyricon, LXVIII, 5) Tradução de Sandra Braga Bianchet. Cf. PETRÔNIO. Satyricon, 2004.

[11] Tradução de Sandra Braga Bianchet. Cf. PETRÔNIO. Satyricon, 2004. [Grifos nossos]

[12] Essa comparação é muito interessante se atentarmos as outras referências que Petrônio faz as obras de Homero, muitas vezes comparando o périplo dos jovens personagens ao de Odisseu. Essa paródia fica mais clara quando Trimalquião profere as seguintes palavras: “Então, voltemos ao bom humor do começo […] e esperemos os homeristas” (Satyricon, LIX, 2).

[13] NICOLAI, Roberto, In: MARINCOLA, John, 2007, p. 24.

[14] Anais, IV, 34.

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